
Confesso que não tinha ideia de quem era o Dr. Rui Pato até tocar com ele no Encontro de Gerações do Bairro Norton de Matos e nos ensaios que o precederam. O que me apercebi logo no primeiro ensaio foi que estava perante um músico excepcional. Como o Rafael me disse que o Dr. Rui Pato é o Presidente do CA do Centro Hospitalar de Coimbra, assumi que seria um músico amador. Por conversas posteriores com o Rafaelito, soube que o José (Zeca) Afonso, nos anos 60, foi acompanhado em muitas ocasiões à viola (ao vivo e em gravações) por um tal de Rui Pato.
Pois...
Comecei a pesquisar sobre a ligação entre o José Afonso e o Rui Pato e a conclusão a que chego é que tive a oportunidade de tocar com aquele que foi o braço direito... e esquerdo... e os dez dedos das mãos... do José Afonso.
"Quando o Zeca, já depois da sua passagem em Coimbra, como estudante e cantor do fado tradicional, já professor, regressa a Coimbra para mostrar aos amigos um modelo novo de canções, vai ter à Brasileira. Mas para se ouvirem as coisas novas era necessário um acompanhante à viola. Como eu tocava viola e o meu pai o lembrou, foram todos para minha casa para o Zeca mostrar as suas primeiras canções. E foi então que eu ouvi pela primeira vez as coisas novas do Zeca, que fui acompanhando à viola de uma maneira de que ele gostou. E pronto, nasceu ali a ideia de passar a acompanhar o Zeca Afonso, o que aconteceu logo até num primeiro disco, que também foi sugerido na altura.
(...) As canções que o Zeca cantou foram algumas das que depois se transformaram em símbolos, como “Os vampiros”, “O meu menino é de oiro”, “Tenho barcos, tenho remos”, aquelas primeiras coisas que ele gravou, que eu acompanhei, e que depois se transformaram em grandes sucessos. Seguiram-se um segundo disco e um terceiro. Comecei depois a acompanhar o Zeca em espectáculos um pouco por todo o país, o que aconteceu entre 1963 e 1969, na altura da crise académica. Ainda antes, por altura de 1965, comecei também a acompanhar o Adriano [Correia de Oliveira], o que voltou a acontecer com o António Portugal, o Pinho Brojo, o António Bernardino, numa actividade quase febril.
(...) Chegámos a 1969 e como eu era dirigente académico fui castigado, foi-me retirada a possibilidade de ir para o estrangeiro e, por isso, não pude acompanhar o Zeca que começou a gravar lá fora em condições completamente diferentes daquelas que tinha em Portugal. Mas continuei a acompanhar o Adriano em 1969, em 70, ainda gravei com ele “O canto e as armas”, com poemas de Manuel Alegre. Em 70, 71, 72 ainda acompanhei o Adriano, ainda fiz várias coisas com o António Portugal, com o Brojo. Depois disso, quando me formei em Medicina, em 1972, dediquei-me ao exercício da profissão e só muito raramente fazia música, o que voltou a acontecer com o Adriano numa Festa do Avante e, depois, a pedido do Zeca, no seu último concerto no Coliseu, onde eu o acompanhei em três temas dos seus mais antigos.
(...) um ano ou dois depois de eu acompanhar o Zeca. Só então percebi a importância do canto do Zeca e da minha própria contribuição para ele. Porque o que aconteceu foi mostrar um novo modelo de acompanhamento, um instrumento muito discreto que serve quase só para sublinhar o poema"
Entrevista de Rui Pato no Diário as Beiras de 3 de Agosto de 2009
Que pinta!
E eu, que sou um borra-botas de trás da serra da Estrela, tive logo que dar uma fífia quando actuávamos para aquela malta toda do bairro Norton de Matos.
Curiosidades sobre José Afonso - Rascunhos
Recomendação da AnAndrade... e agora minha: blog 80 anos de zeca











